A depressão não respeita o horário comercial.
Não posso vestir o uniforme mal costurado de minha própria vontade -
Minhas pernas rangem, estou atrasado pro trabalho;
Só os trovões iluminam meu corpo sem vida e
A frente os carros colidem pra lembrar do que é efêmero:
Minha cabeça na bandeja dos gerentes,
Meu coração no cinzeiro dos patrões.
Me sinto como um pássaro enjaulado por ser feio, exótico,
Não consigo tocar o mundo lá fora
Os músculos em tremores, convencidos pelas grades de que não tem conserto
Permanecem trancados.
Meus membros foram rasgados.
Estou destruído.
Como um cão velho, abandonado no quintal, cego e surdo,
Definhando na chuva; sentindo dor só pra sentir alguma coisa.
Tentando rasgar o concreto com as unhas gastas;
Tentando esconder a cabeça no chão, tamanha a vergonha que tenho de existir...
Mastigando a angústia de lutar pra não esquecer a cor do céu,
De sentir o cheiro de grama verde sem encontrá-la.
De morrer aos poucos e não de uma vez.
Morro aos poucos.
Não sou capaz de enxergar na névoa que cobre meu espírito -
Bater o martelo por oito horas por dia não me liberta
E nem dá o veredicto aos meus demônios que vivam no inferno
-
Se o fizesse, talvez os encontraria nos salões e escritórios,
Talvez batessem na porta quando o encarregado me permitisse ir ao banheiro.
Talvez batessem o cartão e se sentassem no gabinete ao lado
Sorrindo com dentes amarelos suas ordens,
Sua produtividade maior que a minha,
Sua capacidade de me demitir das pequenas alegrias que tenho como humano.
Minha carne é banquete pras formigas,
As sinto caminhar por meus olhos de vidro, a comer minhas córneas.
Sinto-as pelas mãos fracas que não conseguem segurar as moedas velhas que são minhas;
Sinto-as pelas mãos machucadas que já não tem tempo pra se estender nem pra tocar um rosto amigo.
Sinto-as pelas mãos que já não me pertencem;
Pertencem aos juros, à hipoteca, às dívidas.
Estou pobre de mim mesmo.
Pobre e degenerado.
Como um jardineiro que vislumbra belas paisagens,
Planta as sementes com calma e cuida com amor e
Depois é chicoteado até virar as costas.
Rangendo os dentes em agonia
Imagino os frutos apodrecendo no chão
E amaldiçoo a tempestade que vai arrancar minhas flores pelas raízes.
Sinto de longe meu amor caído e morto; Pálido e seco pois,
Agora leproso, já não posso nutri-lo.
A depressão não respeita nada disso,
Pelo contrário: Faz chacota enquanto me arranca a alma,
E eu, envergonhado e curvo, continuo tentando suar
A dor de nascer junto ao Sol e não vê-lo crescer.
E eu, menos que um cão e me debatendo no chão
Aguento sorrindo até o fim do expediente
sexta-feira, 9 de junho de 2017
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Canção do Corpo Sob a Terra
Os doze sinos badalaram e o véu
Negro da noite bateu à minha porta
Veio cobrir com sua vasta dor o céu
E a mim com uma alma fria e morta
Eu pude ver pela janela os clarões
De uma cidade que acordava angustiada
Tamanha era a força com que meus pulmões
Gritavam suas vogais na madrugada
Mas quando olharam para cima, ninguém viu
O que era bem mais claro que a luz do dia
No alto havia apenas um quarto vazio
E neste quarto o meu corpo não cabia
Despenquei e a queda livre escureceu
Todas as luzes da noite, até a lua
Meu coração, de gritar, também morreu
No chão restou apenas minha carne crua
Tudo é silêncio, agora que me deito
E o solo embala o sono de meu corpo frio
E só a terra que hoje cobre o meu leito
Entoa os gritos que minha boca engoliu
Negro da noite bateu à minha porta
Veio cobrir com sua vasta dor o céu
E a mim com uma alma fria e morta
Eu pude ver pela janela os clarões
De uma cidade que acordava angustiada
Tamanha era a força com que meus pulmões
Gritavam suas vogais na madrugada
Mas quando olharam para cima, ninguém viu
O que era bem mais claro que a luz do dia
No alto havia apenas um quarto vazio
E neste quarto o meu corpo não cabia
Despenquei e a queda livre escureceu
Todas as luzes da noite, até a lua
Meu coração, de gritar, também morreu
No chão restou apenas minha carne crua
Tudo é silêncio, agora que me deito
E o solo embala o sono de meu corpo frio
E só a terra que hoje cobre o meu leito
Entoa os gritos que minha boca engoliu
Meu
Meus dias não me pertencem;
Até as estrelas me queimam o rosto
Quando chega a noite.
Todos contam a mesma piada,
Só eles veem graça.
Bebem dos copos alheios
Pra subir os muros cheios de lodo
E gritar do topo até que meus ouvidos sangrem.
A cidade mastiga meu corpo.
Com a energia de Deuses, eles sobem.
Com louvor jamais visto
Por gente tão baixa como eu
Eles destroem as pontes.
Eu caio duro na sarjeta
Envenenado por seus beijos em minha testa.
Seus lábios secos
Me drenam como gin no fígado.
Me venderam por muito pouco e..
Meus olhos, agora, só expressam cansaço.
Meus filhos virão ao sepulcro
Morar comigo e sentir o frio afiado de meus braços
Enquanto a marcha dos Deuses caminhará
Para conquistar castelos sagrados e terras fecundas;
Dentro de uma carcaça seca e suja
Estará minha alma abraçada aos joelhos,
Embalando meu sono eterno
E conquistando aquilo que sempre foi meu:
Solidão...
Solidão e vazio.
Só isso me pertence.
Até as estrelas me queimam o rosto
Quando chega a noite.
Todos contam a mesma piada,
Só eles veem graça.
Bebem dos copos alheios
Pra subir os muros cheios de lodo
E gritar do topo até que meus ouvidos sangrem.
A cidade mastiga meu corpo.
Com a energia de Deuses, eles sobem.
Com louvor jamais visto
Por gente tão baixa como eu
Eles destroem as pontes.
Eu caio duro na sarjeta
Envenenado por seus beijos em minha testa.
Seus lábios secos
Me drenam como gin no fígado.
Me venderam por muito pouco e..
Meus olhos, agora, só expressam cansaço.
Meus filhos virão ao sepulcro
Morar comigo e sentir o frio afiado de meus braços
Enquanto a marcha dos Deuses caminhará
Para conquistar castelos sagrados e terras fecundas;
Dentro de uma carcaça seca e suja
Estará minha alma abraçada aos joelhos,
Embalando meu sono eterno
E conquistando aquilo que sempre foi meu:
Solidão...
Solidão e vazio.
Só isso me pertence.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Sob o Vívido Sol da Vingança
Poderíamos chutar todas as pedras
E gritar pro mundo
Que nunca nos esqueceremos
Das milhares traições que sofremos
E que voltaremos pra colocar fogo em tudo.
E tudo estaria bem, então.
Poderíamos cuspir a vida sem sal que vivemos
Dobrar os talheres com os olhos
Pra nos convencer que estamos cada dia mais fortes
Que vamos sobreviver, de novo,
Mesmo que todos apostem na nossa queda.
Poderíamos, ainda, arrancar pelas raízes
Todo o mal plantado em nosso coração
E voltar a respirar aliviados,
Outrora afogando, engasgados em ódio
Agora nada mais iria nos puxar pra baixo.
Mas a verdade é que não temos
Nem a certeza, nem a força
E o medo nos acorda em meio a noite
E sequer há esperança de que um dia melhor nasça.
E, no fim das contas..
Se impedíssemos
O nascer deste Sol pálido de sempre,
As cores de um verão esplêndido
Iriam destruir todo o tédio
Que reinou nos últimos anos,
Ou estaríamos fadados
A viver pra sempre sob
A maldição de um céu cinza
A nos atormentar?
E gritar pro mundo
Que nunca nos esqueceremos
Das milhares traições que sofremos
E que voltaremos pra colocar fogo em tudo.
E tudo estaria bem, então.
Poderíamos cuspir a vida sem sal que vivemos
Dobrar os talheres com os olhos
Pra nos convencer que estamos cada dia mais fortes
Que vamos sobreviver, de novo,
Mesmo que todos apostem na nossa queda.
Poderíamos, ainda, arrancar pelas raízes
Todo o mal plantado em nosso coração
E voltar a respirar aliviados,
Outrora afogando, engasgados em ódio
Agora nada mais iria nos puxar pra baixo.
Mas a verdade é que não temos
Nem a certeza, nem a força
E o medo nos acorda em meio a noite
E sequer há esperança de que um dia melhor nasça.
E, no fim das contas..
Se impedíssemos
O nascer deste Sol pálido de sempre,
As cores de um verão esplêndido
Iriam destruir todo o tédio
Que reinou nos últimos anos,
Ou estaríamos fadados
A viver pra sempre sob
A maldição de um céu cinza
A nos atormentar?
quarta-feira, 30 de março de 2016
O Peso do Mundo Sobre Meu Rosto
Acordei; Era noite.
Fui dormir; 'inda era.
Atribuo o fracasso ao otimismo
Por isso o temo, corro
E o escondo sob meus lençóis
E deixo-o como se
Sempre houvesse otimismo lá.
Mas nem sempre há
E acordo sozinho e suado
A maioria das vezes
Tanto pesa-me a vida
Que vejo o espelho
Com olhos baixos, nos cantos;
E por todas as ruas
Cada cidadão indaga-me
'Dormiste direito?'
Ao que respondo
Silêncio que diz que
Fui dormir; era noite
Acordei; 'inda era.
Tento salvar um cigarro
De sua queda em uma poça d'água
Tento reascendê-lo, reanimá-lo
Porque não posso reanimar-me
De minha própria queda
E procuro em minha cama
Sem encontrar nada
Porqu'ela foi embora com tudo que é meu
E meus filhos não vão nascer
E se nascerem, nem saberei
Mas antes havia sim,
Algo que parecia um teatro
Haviam belas dançarinas e
Haviam holofotes sobre mim
E meu corpo era estudado
Pelas mãos que mais o conheciam
E que o acalmavam até que dormisse
Mas a noite nem chegou ao fim
E os papéis foram trocados
E as mãos de todos sobre o palco
Conheciam tantos outros corpos
Que nem podiam contá-los nos
Mais de cem dedos que somavam
E eu nunca mais descansei
Para tentar ensaiar discursos que
Me fizessem parecer com eles
Deitei-me em minha cama
Que estava vazia e precisava
De alguma companhia que fosse,
Pois já era dia.
E..
Quando acordei,
Já não era mais dia,
Já não havia mais nada
E, desde então,
Até durmo, até acordo
Mas é sempre noite
Fui dormir; 'inda era.
Atribuo o fracasso ao otimismo
Por isso o temo, corro
E o escondo sob meus lençóis
E deixo-o como se
Sempre houvesse otimismo lá.
Mas nem sempre há
E acordo sozinho e suado
A maioria das vezes
Tanto pesa-me a vida
Que vejo o espelho
Com olhos baixos, nos cantos;
E por todas as ruas
Cada cidadão indaga-me
'Dormiste direito?'
Ao que respondo
Silêncio que diz que
Fui dormir; era noite
Acordei; 'inda era.
Tento salvar um cigarro
De sua queda em uma poça d'água
Tento reascendê-lo, reanimá-lo
Porque não posso reanimar-me
De minha própria queda
E procuro em minha cama
Sem encontrar nada
Porqu'ela foi embora com tudo que é meu
E meus filhos não vão nascer
E se nascerem, nem saberei
Mas antes havia sim,
Algo que parecia um teatro
Haviam belas dançarinas e
Haviam holofotes sobre mim
E meu corpo era estudado
Pelas mãos que mais o conheciam
E que o acalmavam até que dormisse
Mas a noite nem chegou ao fim
E os papéis foram trocados
E as mãos de todos sobre o palco
Conheciam tantos outros corpos
Que nem podiam contá-los nos
Mais de cem dedos que somavam
E eu nunca mais descansei
Para tentar ensaiar discursos que
Me fizessem parecer com eles
Deitei-me em minha cama
Que estava vazia e precisava
De alguma companhia que fosse,
Pois já era dia.
E..
Quando acordei,
Já não era mais dia,
Já não havia mais nada
E, desde então,
Até durmo, até acordo
Mas é sempre noite
Aos Filhos das Mesmas Mães
Tempo esgotado.
Saimos da infância para entrar em queda livre
Só então vimos o quanto correr demais
Escurecera nossas vistas e enfraquecera nossas pernas.
Você me disse, com os olhos,
Que um dia poderíamos voltar e que nossos quartos estariam iguais,
Que nossas mães não teriam rugas nos rostos,
Que nossos pais não teriam as mãos machucadas,
Então perdi o medo,
Mas tive que calar o coração com álcool,
Pra suportar a estrada até lá.
E agora pegar os cacos de vidro que deixamos pra trás
Faz sangrar demais
Não porque fomos traídos, mas porque é seu papel no mundo.
Criamos cães que nos odeiam
Por tê-los esquecido, deixado na sarjeta.
Você não vê, agora, que não sabemos ler as placas
E entender os sinais de que estamos totalmente perdidos?
E você nunca vai pedir desculpas.
Mesmo engolido pelas sombras das máquinas dessa cidade,
Você não vai pedir desculpas.
Mesmo que se arrependa a cada segundo.
São tantas as pessoas sobre as pernas-de-pau do ego
Inflando como balões e chegando perto demais do Sol
E são tantas outras que enfiam a cabeça em sacos plásticos
Para não ter que ver o quanto dói existir;
E agora que nossas pernas estão fracas demais pra fugir,
Da escolha que temos que fazer
Precisamos de mais tempo.
E..
Saber que o tempo se esgotou..
Dói demais.
"Eu caminhei,
Não podia fazer nada além de caminhar
E então..
Me vi caminhando na frente de mim mesmo.
Cuidado com o vão da porta.
É uma realidade separada.
O único eu sou eu
Tem certeza
De que o único você é você?"
Saimos da infância para entrar em queda livre
Só então vimos o quanto correr demais
Escurecera nossas vistas e enfraquecera nossas pernas.
Você me disse, com os olhos,
Que um dia poderíamos voltar e que nossos quartos estariam iguais,
Que nossas mães não teriam rugas nos rostos,
Que nossos pais não teriam as mãos machucadas,
Então perdi o medo,
Mas tive que calar o coração com álcool,
Pra suportar a estrada até lá.
E agora pegar os cacos de vidro que deixamos pra trás
Faz sangrar demais
Não porque fomos traídos, mas porque é seu papel no mundo.
Criamos cães que nos odeiam
Por tê-los esquecido, deixado na sarjeta.
Você não vê, agora, que não sabemos ler as placas
E entender os sinais de que estamos totalmente perdidos?
E você nunca vai pedir desculpas.
Mesmo engolido pelas sombras das máquinas dessa cidade,
Você não vai pedir desculpas.
Mesmo que se arrependa a cada segundo.
São tantas as pessoas sobre as pernas-de-pau do ego
Inflando como balões e chegando perto demais do Sol
E são tantas outras que enfiam a cabeça em sacos plásticos
Para não ter que ver o quanto dói existir;
E agora que nossas pernas estão fracas demais pra fugir,
Da escolha que temos que fazer
Precisamos de mais tempo.
E..
Saber que o tempo se esgotou..
Dói demais.
"Eu caminhei,
Não podia fazer nada além de caminhar
E então..
Me vi caminhando na frente de mim mesmo.
Cuidado com o vão da porta.
É uma realidade separada.
O único eu sou eu
Tem certeza
De que o único você é você?"
quarta-feira, 23 de março de 2016
Comum a Todos os Homens
Tudo que você ama um dia o deixará.
o que ficar, o irá destruir.
Dito isso, resta o silêncio.
Aquele que odeias com todas as forças,
que, como um demônio insone,
Não o deixa pregar os olhos na noite.
E, se agarras, com unhas e dentes,
a vista d'uma janela de apartamento
Para convencer-te de que há, ainda, algo de belo
Nas noites em que é possível ver a lua,
Talvez veja, esta mesma janela,
Teu corpo ser lançado, aflito e desesperançoso
No abismo comum a todos os homens.
Pois todo ser na Terra quis, por uma noite,
ter surdos os ouvidos para os nomes de seus amores,
E cada coração despedaçado
Ansiou triste o abraço e o calor de alguém que fosse
Mesmo que por piedade ou tédio.
Tu, que busca num copo de conhaque
As mãos afáveis de uma mãe
Encontrará, assustado, as sombras macabras dos chicotes de teu pai.
E tu, que gritas no escuro,
Fera aleijada pelo descaso, cheia de vazio e angústia,
Terá cem dedos e, ainda assim, há de perder a conta dos fracassos.
Pois teu Deus não é Pai, nem filho,
Teu Deus é carne, osso e fumaça
E se a ele és Fiel, como uma esposa estuprada
Calada e repreendida incontáveis vezes,
Ele, como tudo que um dia amaste,
O deixará, enquanto dormes.
o que ficar, o irá destruir.
Dito isso, resta o silêncio.
Aquele que odeias com todas as forças,
que, como um demônio insone,
Não o deixa pregar os olhos na noite.
E, se agarras, com unhas e dentes,
a vista d'uma janela de apartamento
Para convencer-te de que há, ainda, algo de belo
Nas noites em que é possível ver a lua,
Talvez veja, esta mesma janela,
Teu corpo ser lançado, aflito e desesperançoso
No abismo comum a todos os homens.
Pois todo ser na Terra quis, por uma noite,
ter surdos os ouvidos para os nomes de seus amores,
E cada coração despedaçado
Ansiou triste o abraço e o calor de alguém que fosse
Mesmo que por piedade ou tédio.
Tu, que busca num copo de conhaque
As mãos afáveis de uma mãe
Encontrará, assustado, as sombras macabras dos chicotes de teu pai.
E tu, que gritas no escuro,
Fera aleijada pelo descaso, cheia de vazio e angústia,
Terá cem dedos e, ainda assim, há de perder a conta dos fracassos.
Pois teu Deus não é Pai, nem filho,
Teu Deus é carne, osso e fumaça
E se a ele és Fiel, como uma esposa estuprada
Calada e repreendida incontáveis vezes,
Ele, como tudo que um dia amaste,
O deixará, enquanto dormes.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Quem me dera
Quem me dera
Deixar a vida passar
Através do meu corpo
Sem peso.
Não me ajoelhar
Para olhar nos olhos
A criança que sou
Escondida embaixo
Do tapete imundo,
Atrás do sofá barato,
Da cortina de tecido ruim.
Quem me dera
Ouvir meu nome e não
Sentir vergonha.
Quem me dera
Deixar quietos, dormindo
Meus erros e falhas
Não empilhá-los
Sobre minhas costas
E não tentar
Subir montanhas inalcançáveis.
Nem tentar,
Por saber
Que qualquer um conseguiria
Menos eu.
Quem me dera
Não saber disso.
Reis, todos eles
Sobre os montes onde
Me curvo,
E morro todo dia.
Nos morros onde sou pó,
Deuses e heróis.
Eu, coveiro de mim mesmo
Me enterro,
Cavando, com as unhas, a terra.
E, por baixo da terra,
O fracasso;
Alimento para as árvores,
O medo;
Enxarcando-lhes as raízes.
'Elas zombam de mim.
Suas vozes
Sangram meus ouvidos
Espero que a surdez as cale.
Até lá, sufoco.
Nos vales onde
Caminho toda noite,
Sou só mais um moribundo.
Piso sobre as lápides
Mas nem os mortos
Se incomodam comigo.
Nesses vales
Todos são mais fortes que eu
Me enfrentam
Em batalhas imaginárias
E antes que
Empunhe as armas
Que sequer tenho
Já estou derrotado,
Pois assim nasci
E porque está
Tatuada em meu corpo
A fraqueza
De ser eu mesmo.
Quem me dera
Não sabe disso.
Vou acordar mais um dia
Contra todas
As expectativas
E vou chutar
As pedras que estiverem
No caminho,
Mas elas ainda
Estarão lá quando
For a hora de voltar.
E quando me deitar
Não vou dormir
Porque elas se deitarão
Comigo em minha cama.
E quando tentar sonhar
Com os olhos ardendo
Tamanho o cansaço
Por não pregar os olhos há dias,
Meu coração doerá
Porque elas jamais
Me abandonarão novamente.
E quanto mais..
Quanto mais eu tento
Me livrar de tudo isso
Quanto mais eu tento
Esquecer quem sou
Disfarçar a miséria
Enxergar alguma
Beleza na vida, sequer
Algo leve, que seja.
Mais percebo
Que
Talvez não
Pertença..
Ao mundo dos vivos..
Quem me dera..
Não saber disso..
Deixar a vida passar
Através do meu corpo
Sem peso.
Não me ajoelhar
Para olhar nos olhos
A criança que sou
Escondida embaixo
Do tapete imundo,
Atrás do sofá barato,
Da cortina de tecido ruim.
Quem me dera
Ouvir meu nome e não
Sentir vergonha.
Quem me dera
Deixar quietos, dormindo
Meus erros e falhas
Não empilhá-los
Sobre minhas costas
E não tentar
Subir montanhas inalcançáveis.
Nem tentar,
Por saber
Que qualquer um conseguiria
Menos eu.
Quem me dera
Não saber disso.
Reis, todos eles
Sobre os montes onde
Me curvo,
E morro todo dia.
Nos morros onde sou pó,
Deuses e heróis.
Eu, coveiro de mim mesmo
Me enterro,
Cavando, com as unhas, a terra.
E, por baixo da terra,
O fracasso;
Alimento para as árvores,
O medo;
Enxarcando-lhes as raízes.
'Elas zombam de mim.
Suas vozes
Sangram meus ouvidos
Espero que a surdez as cale.
Até lá, sufoco.
Nos vales onde
Caminho toda noite,
Sou só mais um moribundo.
Piso sobre as lápides
Mas nem os mortos
Se incomodam comigo.
Nesses vales
Todos são mais fortes que eu
Me enfrentam
Em batalhas imaginárias
E antes que
Empunhe as armas
Que sequer tenho
Já estou derrotado,
Pois assim nasci
E porque está
Tatuada em meu corpo
A fraqueza
De ser eu mesmo.
Quem me dera
Não sabe disso.
Vou acordar mais um dia
Contra todas
As expectativas
E vou chutar
As pedras que estiverem
No caminho,
Mas elas ainda
Estarão lá quando
For a hora de voltar.
E quando me deitar
Não vou dormir
Porque elas se deitarão
Comigo em minha cama.
E quando tentar sonhar
Com os olhos ardendo
Tamanho o cansaço
Por não pregar os olhos há dias,
Meu coração doerá
Porque elas jamais
Me abandonarão novamente.
E quanto mais..
Quanto mais eu tento
Me livrar de tudo isso
Quanto mais eu tento
Esquecer quem sou
Disfarçar a miséria
Enxergar alguma
Beleza na vida, sequer
Algo leve, que seja.
Mais percebo
Que
Talvez não
Pertença..
Ao mundo dos vivos..
Quem me dera..
Não saber disso..
sexta-feira, 18 de março de 2016
Laranja e Verde
Tivesse alguém me dito
Que as folhas que cairam jamais seriam verdes novamente
Que os filhos que não nasceram, jamais cresceriam para ver o mundo
Talvez seria menos otimista ainda.
(Por incrível que pareça)
Mas não me disseram e, esperando a próxima estação
Esgotei-me
E já não tenho entusiasmo que faça com que o tempo volte.
Outrora os céus se enchiam do laranja de teu cabelo
E o oceano vestia-se do verde de teus olhos
Agora só há cinza, no céu e no oceano.
Viraste as costas e deste de ombros ao mundo
Cuspiste nas estátuas uma vez erguidas em teu nome,
Escarraste em mim, em cada palavra que saiu de minha boca.
Eu fui sincero, me doei
E já não tenho voz e nem forças pra curar minha mudez.
A cidade está vazia e assim permanecerá,
Todos foram visitar seus pais,
Alguém a quem tenham, alguém a quem amam.
Levam flores; presenteiam vivos e mortos.
E pra mim, tu estás morta,
E, mesmo que estejas enterrada em meu jardim,
Não quero mais visitar-te; ver teu rosto
E sentir o desprezo em teus olhos estáticos,
Já não tenho flores pra colher pra ti, afinal.
A cidade está vazia e cada vez mais distante.
Todos mudaram-se para um lugar melhor,
Um jardim gentil, alguma outra cidade sem nome.
Poderia pintá-la enquanto dormem
Tirar forças da alma e tingir aço e asfalto
Mas o cinza é mais forte que eu,
E já não existe cor que possa curá-lo.
E foi assim que a vida correu,
Tivesse alguém me dito que assim seria,
Talvez seria menos otimista ainda
E teria me poupado de ficar olhando pro mundo
Pro resto de minha vida miserável
Esperando alguma coisa sequer
Que me lembre como era
Antes de você ir embora.
Que as folhas que cairam jamais seriam verdes novamente
Que os filhos que não nasceram, jamais cresceriam para ver o mundo
Talvez seria menos otimista ainda.
(Por incrível que pareça)
Mas não me disseram e, esperando a próxima estação
Esgotei-me
E já não tenho entusiasmo que faça com que o tempo volte.
Outrora os céus se enchiam do laranja de teu cabelo
E o oceano vestia-se do verde de teus olhos
Agora só há cinza, no céu e no oceano.
Viraste as costas e deste de ombros ao mundo
Cuspiste nas estátuas uma vez erguidas em teu nome,
Escarraste em mim, em cada palavra que saiu de minha boca.
Eu fui sincero, me doei
E já não tenho voz e nem forças pra curar minha mudez.
A cidade está vazia e assim permanecerá,
Todos foram visitar seus pais,
Alguém a quem tenham, alguém a quem amam.
Levam flores; presenteiam vivos e mortos.
E pra mim, tu estás morta,
E, mesmo que estejas enterrada em meu jardim,
Não quero mais visitar-te; ver teu rosto
E sentir o desprezo em teus olhos estáticos,
Já não tenho flores pra colher pra ti, afinal.
A cidade está vazia e cada vez mais distante.
Todos mudaram-se para um lugar melhor,
Um jardim gentil, alguma outra cidade sem nome.
Poderia pintá-la enquanto dormem
Tirar forças da alma e tingir aço e asfalto
Mas o cinza é mais forte que eu,
E já não existe cor que possa curá-lo.
E foi assim que a vida correu,
Tivesse alguém me dito que assim seria,
Talvez seria menos otimista ainda
E teria me poupado de ficar olhando pro mundo
Pro resto de minha vida miserável
Esperando alguma coisa sequer
Que me lembre como era
Antes de você ir embora.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Quem Dorme na Noite de Terça
"Quem é que dorme na noite de terça?"
...
Todo mundo dorme na noite de terça..
Menos quem está angustiado,
Esses estão se revirando na cama;
Os que trabalham demais,
Estão calculando quanto tempo falta para acordar;
E aqueles que são ansiosos...
Certamente sonham acordados com o que vai dar errado depois;
Também não dorme quem está triste,
As lágrimas os acordam a cada segundo;
Quem não tem paz,
Os ouvidos zombem e não os deixam pregar os olhos;
As crianças, como dormiriam..
Se há monstros embaixo do estrado de madeira?;
Todos dormem na noite de terça,
Mas os que se importam fecham os olhos e ainda veem coisas;
E os que se inspiram pela dor,
Estão acordados porque nem perceberam o cair da noite;
Alguns estão sozinhos, deveriam dormir,
Mas a solidão tem as mãos frias sobre sua pele;
Aos que temem a noite,
Suas noites são meses de olhos abertos..
Os pais também, só fingem que dormem
Pois seus filhos choram alto pelos cômodos..
Ah! e os que tem fome,
Porque não há cama para que se deitem;
Eu.. Aqui.. Também não durmo!
E, deitado, algo me vem a cabeça:
"Quem é mesmo que dorme, nessa maldita noite de terça?"
...
Todo mundo dorme na noite de terça..
Menos quem está angustiado,
Esses estão se revirando na cama;
Os que trabalham demais,
Estão calculando quanto tempo falta para acordar;
E aqueles que são ansiosos...
Certamente sonham acordados com o que vai dar errado depois;
Também não dorme quem está triste,
As lágrimas os acordam a cada segundo;
Quem não tem paz,
Os ouvidos zombem e não os deixam pregar os olhos;
As crianças, como dormiriam..
Se há monstros embaixo do estrado de madeira?;
Todos dormem na noite de terça,
Mas os que se importam fecham os olhos e ainda veem coisas;
E os que se inspiram pela dor,
Estão acordados porque nem perceberam o cair da noite;
Alguns estão sozinhos, deveriam dormir,
Mas a solidão tem as mãos frias sobre sua pele;
Aos que temem a noite,
Suas noites são meses de olhos abertos..
Os pais também, só fingem que dormem
Pois seus filhos choram alto pelos cômodos..
Ah! e os que tem fome,
Porque não há cama para que se deitem;
Eu.. Aqui.. Também não durmo!
E, deitado, algo me vem a cabeça:
"Quem é mesmo que dorme, nessa maldita noite de terça?"
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Tibet Emocional
No alto do Tibet existe um corpo
À ser encontrado quando Deus
Já não quiser o bem do mundo e dos homens.
Há anos exposta ao frio,
Sob seu corpo há uma semente que jamais germinará.
Abraçados de forma torta, riem
- Ventres inócuos que possuem, jamais ousariam lacrimejar.
De tempos em tempos, sopra o vento seu mantra eterno:
"Apenas um instante e todo corpo será desmembrado,
Um piscar de olhos e não haverão mais os sentidos,
Estará tudo perdido no vasto manto de neblina que cobre esta região".
No alto do Tibet, não existe lei maior que a solidão:
Todo corpo é periférico,
Todo templo está adoecido, curado de sua própria humanidade.
É difícil acreditar que cairemos quando não estamos no topo,
Mas as quedas, às vezes, nos acordam antes mesmo de dormir.
Há este rapaz, então, há muito imóvel, no interior do mundo.
Conta-se a história de seu fim,
Tal como contam a história de como o mundo virá a acabar:
Fechou os olhos, fingiu adormecer
E aguardou que todos saíssem de seu lar,
Quieto e sem fazer alarde, jamais moveu-se novamente.
Nas paredes de seu quarto estão, supostamente,
Escritas suas últimas palavras:
-"Vou simular um coma eterno,
Para que não sintais remorso
Quando derrubarem meu corpo, num tropeço.
E quando estiver no chão,
Explicai-me então, de uma vez por todas,
Falando em alto e bom tom, o motivo pelo qual
Mesmo com os braços de mil homens e mulheres,
Sou incapaz de tocar-lhes e,
Mesmo com cem mil olhos no rosto,
Sequer fui capaz..
De derramar uma só lágrima."
Jamais um só ruído se ouviu naquela região.
À ser encontrado quando Deus
Já não quiser o bem do mundo e dos homens.
Há anos exposta ao frio,
Sob seu corpo há uma semente que jamais germinará.
Abraçados de forma torta, riem
- Ventres inócuos que possuem, jamais ousariam lacrimejar.
De tempos em tempos, sopra o vento seu mantra eterno:
"Apenas um instante e todo corpo será desmembrado,
Um piscar de olhos e não haverão mais os sentidos,
Estará tudo perdido no vasto manto de neblina que cobre esta região".
No alto do Tibet, não existe lei maior que a solidão:
Todo corpo é periférico,
Todo templo está adoecido, curado de sua própria humanidade.
É difícil acreditar que cairemos quando não estamos no topo,
Mas as quedas, às vezes, nos acordam antes mesmo de dormir.
Há este rapaz, então, há muito imóvel, no interior do mundo.
Conta-se a história de seu fim,
Tal como contam a história de como o mundo virá a acabar:
Fechou os olhos, fingiu adormecer
E aguardou que todos saíssem de seu lar,
Quieto e sem fazer alarde, jamais moveu-se novamente.
Nas paredes de seu quarto estão, supostamente,
Escritas suas últimas palavras:
-"Vou simular um coma eterno,
Para que não sintais remorso
Quando derrubarem meu corpo, num tropeço.
E quando estiver no chão,
Explicai-me então, de uma vez por todas,
Falando em alto e bom tom, o motivo pelo qual
Mesmo com os braços de mil homens e mulheres,
Sou incapaz de tocar-lhes e,
Mesmo com cem mil olhos no rosto,
Sequer fui capaz..
De derramar uma só lágrima."
Jamais um só ruído se ouviu naquela região.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Tu, Teu Ventre e o Passado
Nos abraçamos, um dia,
Eu com minha cabeça por sobre teu ventre e,
Teu ventre agora é passado.
Emboloramos lado a lado, mas não juntos,
Esquecidos embaixo da mesa, nem mesmo os vermes nos quiseram comer.
Nos vãos, nas frestas do assoalho, éramos nós,
Como uma borboleta que sai do casulo,
Apenas para tentar alçar voo, falhar e ser engolida pelas dores do mundo.
Nós agora somos passado;
Foi assim que pereceremos.
Me lembro bem dos sonhos que tinha
- Sobre um morro de carvão onde os monges caminhavam,
Descalços, jamais urravam ou gemiam, pisavam firme.
Lá em cima, não havia leito para se deitar,
Lá em cima, não havia sono à saciar,
Apenas os pés descalços sobre as dores do que já havia virado cinza. -
Tais sonhos agora são passado.
[Tenho para mim que jamais serei monge]
Aqui, a verdade é a sarjeta.
Dela brota todo tipo de vida podre,
Que se arrasta pelo chão frio à implorar por socorro.
E foi assim que um dia, no passado,
Vieste até mim e nos abraçamos.
Aqueles abraços, agora, são passado,
E - embora estejamos lado a lado -
Sequer somos capazes de tocar um ao outro.
Eu com minha cabeça por sobre teu ventre e,
Teu ventre agora é passado.
Emboloramos lado a lado, mas não juntos,
Esquecidos embaixo da mesa, nem mesmo os vermes nos quiseram comer.
Nos vãos, nas frestas do assoalho, éramos nós,
Como uma borboleta que sai do casulo,
Apenas para tentar alçar voo, falhar e ser engolida pelas dores do mundo.
Nós agora somos passado;
Foi assim que pereceremos.
Me lembro bem dos sonhos que tinha
- Sobre um morro de carvão onde os monges caminhavam,
Descalços, jamais urravam ou gemiam, pisavam firme.
Lá em cima, não havia leito para se deitar,
Lá em cima, não havia sono à saciar,
Apenas os pés descalços sobre as dores do que já havia virado cinza. -
Tais sonhos agora são passado.
[Tenho para mim que jamais serei monge]
Aqui, a verdade é a sarjeta.
Dela brota todo tipo de vida podre,
Que se arrasta pelo chão frio à implorar por socorro.
E foi assim que um dia, no passado,
Vieste até mim e nos abraçamos.
Aqueles abraços, agora, são passado,
E - embora estejamos lado a lado -
Sequer somos capazes de tocar um ao outro.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A Casa Abandonada
Desamarrarei as sandálias, sujas de lama
Para que possa adentrar a Tua morada.
Virei, como servo e de joelhos,
Para que cuspas em mim e me faça enxergar que,
Depois de tanto pisar sobre as sementes,
Fiz com que nenhuma árvore de meu jardim produza frutos.
É culpa minha, eu admito,
Mas é um ano de frio amargo e cheio de pragas e..
Tenho certa dificuldade em lhe pedir perdão
Por ter amaldiçoado nossos filhos,
Rogando contra os justos, maldizendo os ricos,
Mas é que amor, oh meu grande amor:
- Malditos sejam os ricos de espírito!
Sempre tão inalcansáveis,
Sorrindo de canto de boca
Dando as costas durante Teus discursos sublimes!
Como podem eles ter o reino de Deus?!
Também eu não mereço pássaros azuis à amarrar meus sapatos?
Como não posso tê-los sobre meus ombros
Com a graça e a leveza dos desgraçados anjos?
Já não sei por onde vagas, amor!
E resta apenas.. Na rua onde moro.. Uma casa abandonada
Que esperará por ti, ao longo dos anos,
E cujas salas, mesmo que tu retornes, jamais serão novamente..
tão quentes quanto antes.
Para que possa adentrar a Tua morada.
Virei, como servo e de joelhos,
Para que cuspas em mim e me faça enxergar que,
Depois de tanto pisar sobre as sementes,
Fiz com que nenhuma árvore de meu jardim produza frutos.
É culpa minha, eu admito,
Mas é um ano de frio amargo e cheio de pragas e..
Tenho certa dificuldade em lhe pedir perdão
Por ter amaldiçoado nossos filhos,
Rogando contra os justos, maldizendo os ricos,
Mas é que amor, oh meu grande amor:
- Malditos sejam os ricos de espírito!
Sempre tão inalcansáveis,
Sorrindo de canto de boca
Dando as costas durante Teus discursos sublimes!
Como podem eles ter o reino de Deus?!
Também eu não mereço pássaros azuis à amarrar meus sapatos?
Como não posso tê-los sobre meus ombros
Com a graça e a leveza dos desgraçados anjos?
Já não sei por onde vagas, amor!
E resta apenas.. Na rua onde moro.. Uma casa abandonada
Que esperará por ti, ao longo dos anos,
E cujas salas, mesmo que tu retornes, jamais serão novamente..
tão quentes quanto antes.
terça-feira, 25 de março de 2014
Bruno, o Cadáver
Ninguém me viu chorar aquela noite,
Nem me trouxeram um copo d'água enquanto,
Em prantos, cuspia areia e folhas secas.
Fui sobrecarregado
Pelos fardos e pedras que a vida impunha
A neblina se tornou mais densa, meus olhos mais turvos,
O câncer, mais profundo e específico.
Me julgaram infiel, áspero. Apontaram os dedos
Os que não me viram chorar aquela noite.
Minhas mãos tremiam tanto que derrubei toda a comida,
E cinco dias fui cadáver até que alguém sentisse o cheiro.
O Diabo me fez uma visita, lembrava minha mãe - "Morto vazio não para em pé".
Vestiu uma alma triste com meus olhos e ossos,
E riu de mim por ser ridículo.
"Qual era mesmo a palavra que Deus usaria?" - Ele disse -
"Patético" - Respondi.
Gargalhou como nunca o tinha visto gargalhar.
O Diabo, ele mesmo, com todo seu calor humano, me pregou uma peça:
Corríamos de mãos dadas pelos campos de margaridas,
Quando, de repente, desapareceu.
Sozinho vi-as apodrecer sob meus pés
E o céu esvaziar-se sobre meu crânio.
Vi multidões como platéia de um teatro onde eu era escorraçado,
Enxotado pelas crianças, pisoteado por manadas de artistas e pessoas enormes.
Foram mais de vinte e um anos, cadáver humilhado,
Uma cena que se repetia à cada quando,
Em um exílio de cinzas de flores ao chão e de um céu repleto de ausência.
No fim destes tempos, o Diabo me apareceu pela terceira vez,
Eu, desesperado, corri ao seu encontro,
Esperava ter, de novo, alguma companhia, por pior que fosse.
Mas ele, agora, riu um riso triste.. Estava mudado.
"Vim apenas te buscar para que cesse,
Convenhamos, Bruno, cadáver bom é cadáver morto."
Nem me trouxeram um copo d'água enquanto,
Em prantos, cuspia areia e folhas secas.
Fui sobrecarregado
Pelos fardos e pedras que a vida impunha
A neblina se tornou mais densa, meus olhos mais turvos,
O câncer, mais profundo e específico.
Me julgaram infiel, áspero. Apontaram os dedos
Os que não me viram chorar aquela noite.
Minhas mãos tremiam tanto que derrubei toda a comida,
E cinco dias fui cadáver até que alguém sentisse o cheiro.
O Diabo me fez uma visita, lembrava minha mãe - "Morto vazio não para em pé".
Vestiu uma alma triste com meus olhos e ossos,
E riu de mim por ser ridículo.
"Qual era mesmo a palavra que Deus usaria?" - Ele disse -
"Patético" - Respondi.
Gargalhou como nunca o tinha visto gargalhar.
O Diabo, ele mesmo, com todo seu calor humano, me pregou uma peça:
Corríamos de mãos dadas pelos campos de margaridas,
Quando, de repente, desapareceu.
Sozinho vi-as apodrecer sob meus pés
E o céu esvaziar-se sobre meu crânio.
Vi multidões como platéia de um teatro onde eu era escorraçado,
Enxotado pelas crianças, pisoteado por manadas de artistas e pessoas enormes.
Foram mais de vinte e um anos, cadáver humilhado,
Uma cena que se repetia à cada quando,
Em um exílio de cinzas de flores ao chão e de um céu repleto de ausência.
No fim destes tempos, o Diabo me apareceu pela terceira vez,
Eu, desesperado, corri ao seu encontro,
Esperava ter, de novo, alguma companhia, por pior que fosse.
Mas ele, agora, riu um riso triste.. Estava mudado.
"Vim apenas te buscar para que cesse,
Convenhamos, Bruno, cadáver bom é cadáver morto."
Os Ricos
Como são belos os ricos à dançar de mãos dadas.
E você, na sala de espera da vida,
Infiel, incapaz de ver um palmo à frente do nariz,
Acendendo fogueiras para que,
Mesmo que teu corpo adoeça
Pelo frio que expulsa até Deus de tua casa,
Talvez alguém venha, guiado pela fumaça,
Para jogar-te numa vala e cobrir com terra seca.
Dos ricos são as alegorias folclóricas
Que caçam na floresta teu cheiro
Pra trazer amarrada tua cabeça
À toda cabeça de quem não tiver pão.
E quando eles chegarem.. Eles e um exército
De bons homens mal remunerados,
Arrancarão os dentes de teus filhos e cavalos doentes,
Arrancarão de tua esposa o ventre e a estuprarão,
E de você já não haverá nada pra arrancar.
E quando partirem, além de tua casa em pedaços e cinzas,
E de teus sonhos transformados em esterco,
Deixarão a pior praga que disseminam, a triste e imbecil vontade..
De ser como eles.
E você, na sala de espera da vida,
Infiel, incapaz de ver um palmo à frente do nariz,
Acendendo fogueiras para que,
Mesmo que teu corpo adoeça
Pelo frio que expulsa até Deus de tua casa,
Talvez alguém venha, guiado pela fumaça,
Para jogar-te numa vala e cobrir com terra seca.
Dos ricos são as alegorias folclóricas
Que caçam na floresta teu cheiro
Pra trazer amarrada tua cabeça
À toda cabeça de quem não tiver pão.
E quando eles chegarem.. Eles e um exército
De bons homens mal remunerados,
Arrancarão os dentes de teus filhos e cavalos doentes,
Arrancarão de tua esposa o ventre e a estuprarão,
E de você já não haverá nada pra arrancar.
E quando partirem, além de tua casa em pedaços e cinzas,
E de teus sonhos transformados em esterco,
Deixarão a pior praga que disseminam, a triste e imbecil vontade..
De ser como eles.
Cego, Surdo e Mudo
Lembro teu nome, mesmo que seja em cansaço
E dançando sobre as cinzas de meu coração.
Cravo-o nos muros ásperos dessa cidade, agora vazia.
Parti e deixei-a, sob a chuva de outros dias..
E se fossem inda aquelas dores de outros dias,
Debaixo dos véus que calavam a passagem de outros dias,
Seria tudo menos assombroso talvez.
Mas o cansaço é de hoje. Teu cansaço em meus braços,
Em minhas têmporas, ainda bem vívidas.
Seria eu, em teu lugar, mais feliz e calmo?
Seria eu, no leito de morte, imóvel, ou
Meus pulmões, grisalhos, ansiariam gritar e cuspir pra fora todo o sangue do corpo?
Dias a fio passarei acordado em teu colo ausente...
Desconheço as formas de te dizer essas coisas, agora
Que teus ouvidos surdos me esquecem e esquecem o mundo.
Meu corpo é mais fraco sem ti e minha garganta, trancada.
Não sei se conheces-me amigo como deveria ser,
Não sei se alegram-te as flores que não entreguei.
Talvez reconheças melhor minhas costas,
Meu dar de ombros pra ti em dias difíceis,
Minha ausência, meu egoísmo.
Fui muito egoísta, eu sei. Muito não existi.
Ainda assim os muros hão de gritar teu nome,
Ainda assim, na periférica sarjeta dos dias duros há de perdurar
Teu grito sem voz, cheio de desespero, amaldiçoando-nos por sermos cegos.
Vamos sair, dessa vez, de mãos dadas.
Vamos sair, dessa vez, juntos de verdade.
E rir da besteira que foram esses dias..
Chuvosos.. tristes..
Cansados..
E dançando sobre as cinzas de meu coração.
Cravo-o nos muros ásperos dessa cidade, agora vazia.
Parti e deixei-a, sob a chuva de outros dias..
E se fossem inda aquelas dores de outros dias,
Debaixo dos véus que calavam a passagem de outros dias,
Seria tudo menos assombroso talvez.
Mas o cansaço é de hoje. Teu cansaço em meus braços,
Em minhas têmporas, ainda bem vívidas.
Seria eu, em teu lugar, mais feliz e calmo?
Seria eu, no leito de morte, imóvel, ou
Meus pulmões, grisalhos, ansiariam gritar e cuspir pra fora todo o sangue do corpo?
Dias a fio passarei acordado em teu colo ausente...
Desconheço as formas de te dizer essas coisas, agora
Que teus ouvidos surdos me esquecem e esquecem o mundo.
Meu corpo é mais fraco sem ti e minha garganta, trancada.
Não sei se conheces-me amigo como deveria ser,
Não sei se alegram-te as flores que não entreguei.
Talvez reconheças melhor minhas costas,
Meu dar de ombros pra ti em dias difíceis,
Minha ausência, meu egoísmo.
Fui muito egoísta, eu sei. Muito não existi.
Ainda assim os muros hão de gritar teu nome,
Ainda assim, na periférica sarjeta dos dias duros há de perdurar
Teu grito sem voz, cheio de desespero, amaldiçoando-nos por sermos cegos.
Vamos sair, dessa vez, de mãos dadas.
Vamos sair, dessa vez, juntos de verdade.
E rir da besteira que foram esses dias..
Chuvosos.. tristes..
Cansados..
sexta-feira, 7 de março de 2014
Sob os Cobertores da Solidão
"Hoje deveria ser um bom dia" -
Disse a garota, aos prantos, em frente ao espelho,
Seu cabelo desarrumado, o tempo úmido..
Divertia-se como quem não se importa em deixar cair açúcar no chão,
E agora as baratas chegavam, ao apagar das luzes.
Os sonhos vivem ontem. Hoje é tempo de neblina.
Seu pai, sempre com seu péssimo hálito,
Incapaz de espantar as moscas, ainda assim,
Cambaleando pelo alcoolismo, gritava pela casa.
À ruína dos dias, porcos brindavam.
Como irritavam seus dentes de ouro ao cair nas frestas do assoalho!
Quão nojentos eram ao arrotar seus egos inflados!
A garota chorava sozinha.
Os espelhos turvos em que se observava,
Citavam mil garotas mais belas, em lista,
E ela via-se incapaz de encontrar sua capa de invisibilidade
Em meio a toda bagunça do quarto.
Caminhou até um velho colar que sua mãe havia lhe deixado,
Ao abrir a gaveta, todos os cupins correram por abrigo.
- "Mamãe, eu perdi tudo, não foi mesmo?
Cortaram minhas asas de fada, de anjo,
Emudeceram minhas conversas com as bonecas
E as despejaram de suas casas, não foi?
Submergir em suas águas já não me afaga, mamãe,
Volta pra casa!
Nem as cobertas me protegem na noite..
Quero fugir, me esconder em teus braços quentes,
Volta logo.."
No quarto, apenas as asas das baratas soavam..
Adormeceu sozinha, de novo.
"Amanhã há de ser um dia melhor"
Disse a garota, aos prantos, em frente ao espelho,
Seu cabelo desarrumado, o tempo úmido..
Divertia-se como quem não se importa em deixar cair açúcar no chão,
E agora as baratas chegavam, ao apagar das luzes.
Os sonhos vivem ontem. Hoje é tempo de neblina.
Seu pai, sempre com seu péssimo hálito,
Incapaz de espantar as moscas, ainda assim,
Cambaleando pelo alcoolismo, gritava pela casa.
À ruína dos dias, porcos brindavam.
Como irritavam seus dentes de ouro ao cair nas frestas do assoalho!
Quão nojentos eram ao arrotar seus egos inflados!
A garota chorava sozinha.
Os espelhos turvos em que se observava,
Citavam mil garotas mais belas, em lista,
E ela via-se incapaz de encontrar sua capa de invisibilidade
Em meio a toda bagunça do quarto.
Caminhou até um velho colar que sua mãe havia lhe deixado,
Ao abrir a gaveta, todos os cupins correram por abrigo.
- "Mamãe, eu perdi tudo, não foi mesmo?
Cortaram minhas asas de fada, de anjo,
Emudeceram minhas conversas com as bonecas
E as despejaram de suas casas, não foi?
Submergir em suas águas já não me afaga, mamãe,
Volta pra casa!
Nem as cobertas me protegem na noite..
Quero fugir, me esconder em teus braços quentes,
Volta logo.."
No quarto, apenas as asas das baratas soavam..
Adormeceu sozinha, de novo.
"Amanhã há de ser um dia melhor"
segunda-feira, 3 de março de 2014
Sozinho
Sei que não você não está por aqui,
Te cacei por todos os cantos.
O tempo é duro. Dura demais..
Abram alas que a tristeza vem avassalar.
São as folhas lá fora, a poeira nos olhos;
Todo vento e dor apaga as velas e fecha as janelas,
Nem um inseto ousaria se aproximar agora.
Meus dedos estão congelando, meu amor não me sente.
Abro as gavetas, armários, Rasgo o peito, nada.
Já vi de tudo só de olhar no espelho -
Roendo as unhas, rangendo os dentes, Deus está aflito nesse fim de tarde.
Alguém se casa, em algum lugar do mundo,
Sinto cheiro de briga entre dois melhores amigos,
Perdem o apetite, a vontade de tomar banho.
Cada um tem sua casa, cada um cata seus cacos,
E, de dentro deles, não sangra nada que me lembre que estou vivo.
Não posso fumar em locais fechados, definitivamente.
Para este cachorro cego que me lambe os pés, não há nada aqui para se ver.
Esses pés não tem gosto, se não o da sujeira que o mundo despeja sobre eles.
Mesmo assim, os cães me parecem amar melhor que os homens,
Estes que são atropelados com grande frequência,
Que, estripados na sarjeta, te olham com ódio,
Que, quando tem as mãos arrancadas por roubos, choram,
Que se arrependem e tem o pescoço esticado em nós de uma corda áspera..
Que, assim como eu, estão sozinhos.
Que, quando nos fins de tarde olham pro céu e clamam por Deus,
De Seu amor não encontram nem vestígio.
Te cacei por todos os cantos.
O tempo é duro. Dura demais..
Abram alas que a tristeza vem avassalar.
São as folhas lá fora, a poeira nos olhos;
Todo vento e dor apaga as velas e fecha as janelas,
Nem um inseto ousaria se aproximar agora.
Meus dedos estão congelando, meu amor não me sente.
Abro as gavetas, armários, Rasgo o peito, nada.
Já vi de tudo só de olhar no espelho -
Roendo as unhas, rangendo os dentes, Deus está aflito nesse fim de tarde.
Alguém se casa, em algum lugar do mundo,
Sinto cheiro de briga entre dois melhores amigos,
Perdem o apetite, a vontade de tomar banho.
Cada um tem sua casa, cada um cata seus cacos,
E, de dentro deles, não sangra nada que me lembre que estou vivo.
Não posso fumar em locais fechados, definitivamente.
Para este cachorro cego que me lambe os pés, não há nada aqui para se ver.
Esses pés não tem gosto, se não o da sujeira que o mundo despeja sobre eles.
Mesmo assim, os cães me parecem amar melhor que os homens,
Estes que são atropelados com grande frequência,
Que, estripados na sarjeta, te olham com ódio,
Que, quando tem as mãos arrancadas por roubos, choram,
Que se arrependem e tem o pescoço esticado em nós de uma corda áspera..
Que, assim como eu, estão sozinhos.
Que, quando nos fins de tarde olham pro céu e clamam por Deus,
De Seu amor não encontram nem vestígio.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Eternamente Fiel à Angústia
Mordo os lábios e mastigo o gosto amargo;
Alegre a manhã que tarda e mais ainda a que não chega.
No horizonte, a angústia é um pêndulo -
Onde deveria haver um Sol - enforcada e imponente, paira.
Baterá os dentes na noite eterna, a humanidade,
E cuspir nas vestes negras dos velórios,
E ante as pedras das tumbas de seus filhos,
E com os cães famintos, na madrugada.
Sentam-se nos tronos dos Deuses,
Atirando migalhas às pombas doentes e sem asas.
Todo o valor infinito das coisas
Está depositado em suas sombras
E os medos se tornam maiores,
Os amores, assombrosos corvos,
Que vivem dos cadáveres de outros amores,
E não há pedra sobre pedra que resista
Ao ódio esmagador de suas mãos.
E com mãos quais estas, humanas,
Odeia-me por ter virado as costas.
Mas se perdesse tudo que tenho,
Ainda assim teria as mesmas coisas;
O pó de meus ossos esmagados na madrugada,
E as veias de meus olhos abertos e secos.
Estes, afinal, estão livres -
Eu.. Servo da angústia enforcada nos céus,
Baterei os dentes, aflito na noite eterna.
Alegre a manhã que tarda e mais ainda a que não chega.
No horizonte, a angústia é um pêndulo -
Onde deveria haver um Sol - enforcada e imponente, paira.
Baterá os dentes na noite eterna, a humanidade,
E cuspir nas vestes negras dos velórios,
E ante as pedras das tumbas de seus filhos,
E com os cães famintos, na madrugada.
Sentam-se nos tronos dos Deuses,
Atirando migalhas às pombas doentes e sem asas.
Todo o valor infinito das coisas
Está depositado em suas sombras
E os medos se tornam maiores,
Os amores, assombrosos corvos,
Que vivem dos cadáveres de outros amores,
E não há pedra sobre pedra que resista
Ao ódio esmagador de suas mãos.
E com mãos quais estas, humanas,
Odeia-me por ter virado as costas.
Mas se perdesse tudo que tenho,
Ainda assim teria as mesmas coisas;
O pó de meus ossos esmagados na madrugada,
E as veias de meus olhos abertos e secos.
Estes, afinal, estão livres -
Eu.. Servo da angústia enforcada nos céus,
Baterei os dentes, aflito na noite eterna.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Realismo
Credo-em-cruz e mais um monte de merda,
Só não tanto nos amigos.
Sentir cheiro de merda me traz nostalgia,
Lembra a adolescência,
As pessoas esgotadas [Cheias de esgoto]
Olham para copos vazios
E constatam estar de saco cheio.
E vieram muitos copos vazios, numa noite,
Até que me definissem como pessimista.
Mas nenhum deles estava meio cheio,
Então, como todo pessimista,
Em verdade, em verdade, vos digo: Sou um realista.
Desde quando vim pra cá,
Tenho sempre os mesmos problemas
Esses dos quais não se fala,
E que, por não se falar, não se resolvem nunca;
Em casa os espelhos, rachados,
Me trazem uma imagem distorcida.
Nas ruas, estes que me enxergam com clareza maior
Do que a com que consigo me enxergar,
Me apresentam à mim mesmo,
Alguém não menos distorcido que aquele dos espelhos.
Temo que assim seja.
Então meus amigos vem até em casa:
[Se gostam de mim, boa gente é que não são]
E eles dizem que tudo vai ficar bem,
Que um novo ano começou,
Que serão presentes em meus aniversários.
Hm... sei não..
Credo-em-cruz e mais um monte de merda,
Mas.. Nos amigos...
"Varra-me de uma vez"
Só não tanto nos amigos.
Sentir cheiro de merda me traz nostalgia,
Lembra a adolescência,
As pessoas esgotadas [Cheias de esgoto]
Olham para copos vazios
E constatam estar de saco cheio.
E vieram muitos copos vazios, numa noite,
Até que me definissem como pessimista.
Mas nenhum deles estava meio cheio,
Então, como todo pessimista,
Em verdade, em verdade, vos digo: Sou um realista.
Desde quando vim pra cá,
Tenho sempre os mesmos problemas
Esses dos quais não se fala,
E que, por não se falar, não se resolvem nunca;
Em casa os espelhos, rachados,
Me trazem uma imagem distorcida.
Nas ruas, estes que me enxergam com clareza maior
Do que a com que consigo me enxergar,
Me apresentam à mim mesmo,
Alguém não menos distorcido que aquele dos espelhos.
Temo que assim seja.
Então meus amigos vem até em casa:
[Se gostam de mim, boa gente é que não são]
E eles dizem que tudo vai ficar bem,
Que um novo ano começou,
Que serão presentes em meus aniversários.
Hm... sei não..
Credo-em-cruz e mais um monte de merda,
Mas.. Nos amigos...
"Varra-me de uma vez"
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